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Identidade Pessoal num Mundo Annimo.

ASSINALAMOS ALGUNS problemas que decorrem da falta de significao individual em face das vastas e poderosas 
tendncias coletivistas na cena contempornea. Essa perda fora-nos todos a enfrentar a luta para encontrar e preservar 
identidade neste mundo annimo, mas a situao impe um fardo especialmente penoso aos estudantes. A pena de que 
falo  a ansiedade  de fato, o denominador comum,  medida que todos a experimentamos em tais dilemas. 
Especificamente,  a ansiedade experimentada diante da ameaa de diminuio ou perda da identidade pessoal. Neste 
captulo, proponho-me examinar essa questo, em sua relao com o mundo annimo da educao; mas isso  apenas uma 
expresso do problema muito mais amplo da identidade pessoal em nossa civilizao ocidental. 
Sou mdico e sempre gostei de comear por onde o sapato aperta, por onde a questo di. Creio que podemos fazer isso do 
modo mais proveitoso analisando a natureza e as causas da ansiedade, passando ento  questo da educao e da 
identidade pessoal. 
Formulemos primeiro a pergunta: O que  ansiedade? Se algum na sala grita Fogo! , olho repentinamente para cima, o 
corao acelera, a presso sangunea sobe para que os msculos possam funcionar mais eficientemente e os meus sentidos 
ficam aguados, de modo que posso perceber melhor as chamas 
e escolher uni bom caminho para sair. Isso  a ansiedade normal. 
Mas se, quando me encaminho para a porta, vejo que ela est bloqueada e descubro que no h outra sada, o 
meu estado emocional torna-se imediatamente algo muito diferente. Os meus msculos ficam paralisados, os 
meus sentidos turvam-se repentinamente e a minha percepo obscurece. No posso orientar-me; sinto-me 
como se estivesse num pesadelo; experimento pnico. Isso  uma ansiedade neurtica. 
A primeira  construtiva e ajuda-nos a enfrentar eficientemente as situaes ameaadoras. A segunda, a 
ansiedade neurtica  destrutiva. Consiste na contrao da conscincia, no bloqueio da capacidade de 
percepo das coisas; e, quando  projangada, leva a um sentimento de despersonalizao e de apatia. 
Ansiedade  a perda do sentido do Eu em relao ao mundo objetivo. O fato da distino entre subjetividade e 
objetividade ser nublada, nesse momento,  um aspecto da nossa experincia de sermos imobilizados, 
paralisados, enquanto sob um estado de ansiedade. Ansiedade  perder o nosso prprio mundo; e, como o 
Eu e o mundo esto sempre correlacionados, significa perder, nesse mesmo momento, o nosso Eu. 
Essa ansiedade destrutiva , em maior ou menor grau, o estado dos que perderam, ou nunca realizaram, a 
experincia de sua prpria identidade no mundo. J vimos que isso  devido, em parte, s vastas convulses 
da nossa era, no plano econmico, poltico, moral e cientfico. No poderia haver uma situao mais flagrante 
de sem sada, para muitos jovens, do que a experimentada por eles a respeito da guerra no Vietn. Eles 
depararam-se com a perspectiva de serem recrutados para uma guerra que ningum queria, de lutarem por 
objetivos que ningum conhecia, num terreno em que ningum acreditava que uma guerra pudesse ser 
realmente ganha; entretanto, era uma guerra de que no podamos nos retirar. A confuso de objetivos, em 
nossas relaes internacionais, era em si mesma uma causa da incerteza que favorece a paralisia da ansiedade. 
Mas o problema tem causas mais profundas do que essas crises sociolgicas e polticas.  ansiedade ocorre 
por causa de uma ameaa aos valores que uma pessoa identifica com a sua existncia como um Eu. No meu 
exemplo acima, o fogo  uma ameaa ao valor da vida fsica. Mas na maioria das vezes a ansiedade promana 
de uma ameaa aos valores sociais, emocionais e morais que a pessoa identifica consigo mesma. E, neste caso, 
verificamos que uma causa primordial da ansiedade, particularmente na gerao mais nova,  que no existem 
valores 
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viveis na cultura, na base dos quais possa ser estabelecida uma relao com o mundo. A ansiedade, que  
inevitvel numa era em que os valores se encontram to radicalmente em transio,  uma causa central de 
apatia; e, como indicamos acima, uma to prolongada ansiedade tende a redundar na falta de sentimento e em 
sensao de despersonalizao. 
Uma rea em que a ansiedade se manifesta  na sexualidade e na escolha de um parceiro sexual. Nos nossos 
dias, o sexo  freqentemente usado a servio da segurana;  o modo mais acessvel de superar a apatia e o 
isolamento pessoais. A excitao do parceiro sexual  no s uma sada para a tenso nervosa mas tambm 
demonstra a nossa prpria significao; se um homem e capaz de despertar tais sentimentos numa outra 
pessoa, isso prova que ele prprio est vivo. O par constante (monogamia prematura, como se lhe 
chamou) e a tendncia de muitos estudantes para casar cedo so freqentemente usadas, de igual modo, a 
servio da superao da ansiedade  o par constante proporciona, pelo menos, uma segurana temporria e 
um sentimento de significao. Mas a companhia degenera facilmente em vazio e tdio, sobretudo quando 
comea to cedo que os jovens no se deram a si prprios uma oportunidade de desenvolver suas 
capacidades para serem interessantes como pessoas. O sexo  sempre algo que podemos praticar quando a 
conversao se esgota. Assim, o sarem juntos tende a redundar numa promiscuidade sem sentido, que  a 
substituio das relaes pessoais pela intimidade dos corpos. O corpo  solicitado a preencher o hiato 
deixado quando a pessoa abdica. E o casamento prematuro, que  o segundo resultado de se usar o sexo 
para segurana, tende para o igualmente frustrador vazio do compromisso prematuro, com a possibilidade 
sombria de um montono futuro conjugal. Ambos so meios de encolher a conscincia no momento em que, 
do ponto de vista do desenvolvimento psicolgico, o jovem devia estar explorando e desenvolvendo a sua 
capacidade de conhecimento de diversos membros do sexo oposto, para escolher, finalmente, algum com 
quem tenha alguma possibilidade de um conbio duradouro e significativo. 
Esse uso do sexo a servio da segurana tende, compreensivelmente, a fazer com que o sexo seja cada vez 
mais impessoal. Com efeito, o elemento impessoal  o indivduo deve provar que pode realizar-se sexualmente 
sem se envolver, sem entrega   o elemento que mais preocupa os investigadores e autores que se debruam 
sobre o problema. A impessoalidade tem o efeito de valorizar a sensao sem sensibilidade, o intercurso sem 
intimidade, e, de um modo estranhamente perverso, fazer da negao do sentimento um objetivo preferido.  
exatamente essa perda do sentimento do Eu em relao ao seu mundo impessoal que, como indicamos, 
constitui a ansiedade destrutiva. 
Quando estava lecionando num colgio da Califrnia sobre sexo e amor, os estudantes informaram-me que 
tinham tido, na noite anterior, um baile computorizado. Por meus olhos zombeteiros perpassaram vises de 
computadores danando com estudantes. Mas eles logo me asseguraram que a coisa era dif e- rente da minha 
fantasia; os estudantes tinham preenchido um questionrio e, depois, um computador tinha combinado cada 
estudante com trs do sexo oposto. Na festa, todos eles andaram de um lado para o outro, consultando os 
seus cartes IBM para localizar seus pares certos  sem dvida, como os estudantes dos meus to pouco 
esclarecidos tempos consultavam seus carns de baile. E disseram-me que o baile tinha sido um extraordinrio 
sucesso, porque todos os convivas ficaram aliviados de sua timidez. 
Enquanto eu estava no campus, um night club da Califrnia tambm instituiu o plano computorizado. Certa 
noite, a mquina apresentou o carto de uma morena que no podia considerar-se divinamente proporcionada. 
Quando ela estava parada diante da mquina, esta produziu o carto de um homem condizente. Mas este, 
aparentemente pensando que o ego-ideal do computador no era bastante elevado para ele, no se aproximou. 
E a pobre moa ali ficou plantada, se no ao p do altar, pelo menos no centro da pista de dana. Pensamos, 
por isso, que o night club deveria ser chamado a casa do computador malevolente. 
As perguntas que fiz aos estudantes foram:  assim to bom ser combinado com trs pessoas iguais a 
vocs? No  a vossa idade colegial o tempo adequado para encontrar e conhecer muitos tipos diferentes de 
pessoas do sexo oposto, para que os gostos, interesses e sensibilidades que vocs ignoravam possuir possam 
ser revelados e desenvolvidos? Aceitando que a timidez pode ser uma coisa deveras penosa (certamente a 
timidez neurtica deve ser superada) e que cada um e sente, sem dvida, demasiado tmido, ser assim to 
bom, entretanto, que a timidez natural deva ser inteiramente apagada? No ser a timidez a insinuao 
crescente e imperceptvel de novas relaes? E no tem a timidez a sua funo construtiva normal, 
possivelmente penosa por um lado mas deliciosa e inebriante por outro  a de abrir novas reas de experincia? 
Com efeito, no  a timidez, em seu grau normal, a mais pessoal de todas as emoes. 
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Eu, por exemplo, teria muitas dvidas sobre o prazer de passar muitas noites em crculos onde ningum jamais 
fosse tmido. E tambm indaguei dos estudantes se no ficariam particular- mente desconfiados em deixar que 
o computador, com sua espessa epiderme de alumnio, desempenhasse por eles todos os compromissos e 
tomasse todas as charices? 
PASSANDO AGORA s causas mais especficas da ansiedade na educao, a mais bvia  a grande presso 
para obter notas altas, a fim de ser admitido no colgio, presso essa que continua para obter notas elevadas 
que propiciem o ingresso na universidade. Os pais recriminam e lisonjeiam os estudantes para que obtenham 
as notas necessrias e, nos dias de hoje, at os interesses extracurriculares no ginsio so escolhidos com 
olho no aspecto que tero nos impressos de admisso  universidade. Por conseguinte, o ano de calouro 
representa, com freqncia, uma decepo para o estudante: foi para isso que ele dedicou doze anos inteiros 
de sua vida? E  surpreendente que os estudantes, uma vez admitidos na universidade, exibam amide um 
franco cinismo a respeito da educao e dos objetivos da vida? Numa carta, o Reitor Arthur Jensen, de 
Dartmouth, expressou-o eloqentemente: A cada novo ano, posso ver como aumentam as presses dos 
requisitos para ingresso na universidade, O rapaz brilhante que se contenta com notas mdias nos cursos 
formais, para poder esquadrinhar calmamente a biblioteca, passear e contemplar as estrelas  noite e sondar 
sua alma  o rapaz que tem a cotagem de ser de Tillich  parece cada vez mais ser aquele cujos valores 
divergem tanto dos de seus colegas que se converte, para estes, num sujeito estrambtico, 
O ponto que estou sublinhando aqui no , simplesmente, que tais presses geram ansiedade  todos temos de 
enfrentar a presso, em todas as fases da vida. Estou sublinhando, sobretudo, que os valores dos estudantes 
so inevitavelmente trans! eridos para sinais externos. Ele  validado por pontos e escores; s se sente 
valioso em funo de uma srie de pontos numa escala tcnica. Esta transferncia da validao para fora 
contrai a sua conscincia e mina a sua experincia do prprio Eu. E, uma vez mais, no se trata, simplesmente, 
do fato dos critrios serem externos (todos devemos viver, em qualquer fase da vida, de acordo com muitos 
critrios externos) mas, outrossim, dos critrios no serem escolhidos pela prpria pessoa e, antes, serem-lhes 
impostos por outros  neste caso, pelos pais e as autoridades escolares. 
Uma forma do estudante enfrentar essa ansiedade consiste,  claro, em adotar os valores externos, com uma 
salutar mistura de cinismo, e dizer: 0K, eu vou fazer o jogo da maneira que eles estabeleceram. Adapta-se ao 
sistema educacional com uma das mos e, esperanosamente, preserva a sua prpria alma e humanidade com a 
outra. Uma tal atitude tem sua utilidade mas  comprada pelo preo de um cinismo que deve ser superado pelo 
desenvolvimento de valores subseqentes da prpria pessoa. se ela no quiser acabar na apatia. 
As normas de admisso em colgios e faculdades desempenham,  claro, um papel decisivo e, receio bem, 
definitivamente destrutivo, por vezes, neste caso. Se o computador 5DM  o membro principal do comit de 
admisses, o colgio no pode evitar a tendncia de selecionar aqueles estudantes que melhor se ajustam  
mquina; e isto passa a fazer parte, inevitavelmente, da presso, em educao, para fazer o estudante  imagem 
e semelhana da mquina. 
Isto leva-nos  causa mais sria da ansiedade dos estudantes, a saber, certas tendncias existentes dentro do 
prprio processo educacional. A aprendizagem tende a perder-se, cada vez mais, por trs da aquisio 
exteriorizada de dados. Os nossos campus sofrem sob a iluso de que a sabedoria consiste na pura 
acumulao de fatos; o estudante empilha dados sobre dados, no esforo frentico de adquirir novos fatos. 
Mas, apesar da exploso dos conhecimentos dos dias de hoje  apesar dos microfilmes, eptomes, 
interminveis verbetes e ndices remissivos, novas pesquisas. tudo crescendo em progresso geomtrica a 
ada dia que passa  o estudante jamais conseguir ganhar a corrida, por mais depressa que ele corra. Com 
efeito, descobre que cada vez est ficando mais distanciado, dia aps dia. Assim, o candidato a um diploma 
universitrio tem de trabalhar freneticamente para terminar a sua pesquisa, pois nunca sabe em que bela manh 
abrir o New York Times para ficar ciente de que uma nova descoberta, feita pelo Dr. Fulano em alguma parte 
do globo, tornou toda a sua abordagem invlida e varreu a sua pesquisa para o lixo. 
Dwight Macdonald expressou o problema em termos bem claros: 
A nossa cultura de massa  assim como uma boa parte da nossa cultura superior, ou sria   dominada por 
urna nfase sobre os dados e urna correspondente falta de interesse pela teoria; por urna franca admirao do 
fatual e um desdm inquieto pela imaginao, a sensibilidade e a especulao. Estamos obcecados com a 
tcnica, enfeitiados pelos Fatos, apaixonados pela informao. Os nossos 
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romancistas populares devem contar-nos tudo sobre os antecedentes histricos e profissionais de seus 
fantoches; os chefes 4a Imprensa ganham milhes dando-nos os Fatos nossos de cada dia; os nossos 
achoksra  ou, mais exatamente, os nossos administradores de pesquisas  erguem pirmides de dados para 
cobrir o cadver de uma idia natimorta. . 1 
O ponto que estou sublinhando  que a exteriorizao da educao, nessa nfase sobre a acumulao de fatos 
sobre fatos, mina a experincia de identidade do estudante e  uma causa primordial de ansiedade. Onde  
que est nisto a aventura do pensamento, a alegria do vo do esprito? De fato, o anseio de explorar do 
estudante perde-se sob a compulso de adquirir. A prpria nfase na aquisio confere um prmio ao 
estudante para que no veja como  que ele est relacionado com os fatos. Uma tal preocupao no s requer 
muito tempo mas coloca o fato num novo contexto, torna-o parcialmente pessoal; e quem poder dizer (o 
estudante geralmente tenta-o!) que isso no desvirtua o fato puro? Assim,  prefervel manter os fatos e os 
sentimentos separados, caso contrrio, meditar-se- demais, far-se- uma pausa para refletir e os fatos sero 
contaminados de subjetividade. 
Os estudantes que esto imbudos do desejo de aprender, de seguir as suas inclinaes originais, sentem 
ento a ansiedade provocada por essa traio ao seu prprio eu. O estudante no s se encontra numa linha 
de montagem e defronta-se, como indiquei acima, com quantidades tremendas de dados que, mais cedo ou 
mais tarde, irremediavelmente o derrotaro mas, o que  ainda mais importante, tende a perder contato com o 
significado ntimo do que est estudando. A relao entre os dados e ele prprio como pessoa, entre os dados 
e a sua conscincia da vida, perdeu-se. 
A originalidade e a argcia do estudante tendem, certamente, a ser negadas, porque no so pragmaticamente 
teis; e a imaginao tende a ser contornada. Mas  pela imaginao que posso ver, relacionar-me e criar o meu 
mundo. E  pela minha originalidade, a minha experincia de mim prprio como esse padro nico e inimitvel 
de sensibilidades que, neste instante, est experimentando um relacionamento particular com outras pessoas e 
o mundo  minha volta, que me conheo como uma identidade. Por certo, todos ns temos muito em comum; a 
maior parte das pessoas gosta do paladar de um bife e, em outros momentos, experimenta uma emoo esttica 
e espiritual na leitura de uns versos de Yeats ou na contemplao dos desenhos de um vaso grego. De tudo 
isso compartilhamos com outros. Mas  importante que seja eu quem sente esse gosto ou essa alegria, num 
poema ou num desenho grego. E se essa experincia do Eu se perde  se ela se perde sob a presso do meu 
esforo para tentar recordar o que o meu professor disse a respeito do poema 
 logo estarei tambm perdendo, progressivamente, a minha sensibilidade esttica e espiritual. Assim, a 
educao favorece a ansiedade neurtica do estudante e intensifica-a. 
Uma experincia minha, que ocorreu enquanto estava lecionando recentemente numa universidade, pode 
ilustrar este ponto. Quando pus a gravao de uma entrevista psicoteraputica para uma numerosa turma de 
estudantes dos primeiros anos do curso, eles mostraram-se perfeitamente capazes de escutar e dizer que, neste 
ponto, o paciente estava furioso, naquele ponto estava triste e assim por diante. Mas quando usei a mesma 
gravao no reduzido seminrio de ps-graduao, composto de estudantes que j possuam treino 
profissional, eles mostraram-Se, surpreendentemente, menos capazes de escutar e discernir os sentimentos do 
paciente. Os ingnuos calouros e segundanistas eram capazes dc ouvir a comunicao do paciente  perceber 
o que estava acontecendo; os sofisticados estudantes de ps-graduao, que j conheciam toda a dinmica e 
toda a mecnica das reaes humanas, devolveram-me o que tinham lido nos livros, as formulaes desta e 
daquela dinmica; os seus conhecimentos sobre o comportamento humano como fatos externos e distintos 
interferiram no modo de ouvir e ver a pessoa na gravao. Com efeito, isso fez com que as suas reaes, 
empiricamente falando, fossem menos exatas. Havia,,  claro, o fator competitivo que os tornou ansiosos; os 
estudantes dos primeiros anos, numa classe de cento e cinqenta alunos, no temem ser escolhidos e receber 
uma nota m; mas alguns estudantes finalistas necessitavam da minha recomendao para ingressar nos 
programas de ps-graduao. Entretanto, a nossa principal tese sustenta-se: na perptua acumulao de fatos 
sobre fatos, o estudante perde a sua relao imediata com o assunto; a mquina de frmulas e testes intervm 
entre o estudante e os seres humanos que ele pretensamente procura compreender. H, portanto, uma 
distncia cada vez maior entre os nossos sentidos e os nossos dados. 
Acredito existir algo fundamentalmente errado nessa abordagem da educao. O Or. Ren J. Dubos, do 
Rockefeller Institute, disse que fizera uma recapitulao crtica de todas as descobertas cientficas importantes 
dos ltimos dois sculos  como 
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as de Darwin, Freud e Einstein  e nenhuma delas Linha sido realizada empilhando fatos sobre fatos. As 
descobertas so f citas, antes, pela percepo que o cientista tem da importncia dos relacionamentos, do 
padro significativo entre os fatos, 
As mas tm cado na cabea das pessoas desde que o homem se levantou, pela primeira vez, em suas duas 
pernas e caminhou debaixo de macieiras. Mas Isaac Newton foi o primeiro a perceber a significao desse 
evento. E bastou para isso que uma s ma casse na cabea de Newton, O nosso estudante contemporneo, 
em seu trabalho de graduao,  atingido na cabea tantas e tantas vezes por mas acadmicas e fica to 
estonteado que a sua sensibilidade e percepo embotam e tem cada vez menos probabilidade de perceber o 
significado do que est acontecendo. Assim, tudo o que ele pode fazer  resignar-se a contar quantas mas 
caem e estabelecer uma bela frmula quanto  proporo entre as que caem e as que lhe batem na cabea. Do 
que os estudantes dizem, a est, em cabeas machucadas por mas, um melanclico comentrio sobre boa 
parte da moderna educao universitria. 
Esses processos inevitavelmente despersonalizantes ajustam-se, infelizmente, a muito do que estivemos 
ensinando durante vrios anos. Estivemos dizendo aos estudantes que eles so apenas um reflexo das 
necessidades e foras sociais  e no surpreende que eles tenham acabado por acreditar nisso. Dissemos-lhes 
que eles so, meramente, feixes de reflexos condicionados, que a liberdade e a escolha so iluses, e eles 
acabaram por acreditar nisso. Portanto, no causar surpresa que eles se sintam agora despersonalizados e 
imobilizados e que, por conseguinte, experimentem ansiedade. Apresso-me a dizer que no estou sugerindo 
que esta ou aquela teoria psicolgica ou sociolgica seja responsvel pelo nosso transe histrico. s teorias e 
formas de educao tanto so reflexos como causas da nossa situao cultural; e todos ns, sejam quais forem 
os nossos pontos de vista, compartilhamos da responsabilidade pelos problemas que estou examinando, O 
que pretendo enfatizar, outrossim,  que, como uma boa parte da ansiedade estudantil est relacionada com as 
tendncias gerais da nossa cultura que impregnaram a prpria educao, no temos necessidade de procurar 
causas remotas para compreender a ansiedade dos estudantes, 
Quando fui convidado para dissertar sobre este problema perante os diretores e funcionrios da Associaro de 
Colgios e Escolas Secundrias da Nova Inglaterra, fui descorts bastante para assinalar-lhes que a prpria 
maneira como tinha sido redigido o tema que me era proposto refletia as tendncias despersonalizante da 
nossa cultura. O tema proposto era este: Que podem as escolas e colgios fazer para reduzir a ansiedade e 
aumentar a produtividade nos anos de aprendizagem? Veja-se, por exemplo, a frase para reduzir a 
ansiedade. No meu exemplo do incndio, no comeo deste capitulo, seria muito pouco construtivo, 
obviamente, reduzir a ansiedade, dar  pessoa um tranqilizante sob cuja influncia pudesse ser carbonizada 
sem dor. O eclipse da conscincia que, como vimos, ocorre na ansiedade neurtica tem, exatamente, o efeito de 
perpetuar a ansiedade ao evadir sua causa; e penso que o estado de esprito tranqilizante, em toda a nossa 
cultura, tem uma causa e efeito semelhante. 
No que se refere a ajudar os estudantes, a nossa meta deve ser transferir a ansiedade de uma forma neurtica 
para uma forma construtiva, isto , ajudar o estudante a identificar o que ele sinceramente teme  e o que deve 
temer  e, por conseguinte, ajud-lo a tomar medidas para superar a ameaa. E isto vale para cada um de ns, em 
nossa relao com a nossa prpria ansiedade. Seria irracional que o estudante, ou qualquer de ns, nt3o 
ficasse ansioso na espcie de mundo em que vivemos. A ansiedade  o nosso melhor mestre, escreveu 
Kierkegaard. E prosseguiu: Eu diria que aprender a conhecer a ansiedade  uma aventura que todo e qualquer 
homem tem de enfrentar, se no quiser granjear a sua perdio, por no ter conhecido a ansiedade ou por 
afundar sob ela. Portanto, aquele que aprendeu corretamente a ser ansioso aprendeu a mais importante de 
todas as coisas. 
Note-se tambm a frase, no tema acima citado: aumentar a produtividade. Estive tentando explicar que a 
nfase excessiva sobre a produtividade em educao , exatamente, a causa da ansiedade. Quem produz  a 
mquina; o homem cria. Pela minha parte, preferiria que no campus se cultivasse a coragem da solido e 
possibilitassem a redescoberta da meditao, um desenvolvimento de atitudes que encaream a tranqilidade e 
o silncio propcios para que o estudante pondere e pense, em lugar da nfase sobr uma interminvel 
produtividade. No so abundantes as provas de que  impossvel a qualquer de ns e aos nossos estudantes 
acompanhar, de qualquer modo, o ritmo de produo da mquina, sobretudo com o surgimento da ciberntica? 
Talvez a prpria mquina se encarregue de provar-nos que no temos outra escolha seno sermos humanos! 
Compreenderemos ento 
 e espero ajudar os estudantes a compreenderem  que o homem faz algo de muito maior importncia; ele pode 
perceber significaes, pode descobrir significados. E, com a sua imagi 
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nao, pode fazer o que a mquina jamais poder fazer, notadamente, elaborar os planos e escolher os objetivos. 
Assim, parece-me que a principal coisa necessria para ajudar os estudantes e qualquer de ns a enfrentar a ansiedade de 
um modo construtivo  reconsiderar o processo e os fins da educao. Estou argumentando que a nfase excessiva na 
doutrina baconiana do conhecimento como poder e a preocupao concomitante com a aquisio de poder sobre a 
natureza, assim como sobre ns prprios, no sentido de nos tratarmos como objetos a serem manipulados, em vez de 
seres humanos cuja finalidade  expandir uma existncia significativa, resultou na validao do Eu por critrios externos  o 
que, com efeito, significa a invalidao do Eu. Isso tende a reduzir a conscincia do indivduo, a bloquear a sua percepo 
e, por conseguinte, a favorecer a ansiedade no-construtiva de que falamos acima. Proponho que a finalidade da educao  
exatamente o oposto, notadamente, a ampliao e aprofundamento da conscincia.  medida que a educao pode 
ajudar o estudante a desenvolver a sensibilidade, a profundidade da percepo e, sobretudo, a capacidade de 
perceber formas significativas no que est estudando, ela estar desenvolvendo, simultaneamente, a capacidade do 
estudante para lidar construtivamente com a ansiedade. 
Vimos acima que a ansiedade no-construtiva ganha predomnio em virtude da contrao da conscincia do indivduo. Logo, 
a ampliao da conscincia , em si mesma, um modo fundamental de enfrentar a ansiedade. 
Um ponto final que desejo assinalar relaciona-se com a importncia dos valores. Eu disse, no comeo deste capitulo, que a 
ansiedade  a reao  ameaa aos valores que uma pessoa identifica com a sua existncia como um Eu. Acrescento agora 
um corolrio: Uma pessoa pode enfrentar a ansiedade  medida que os seus valores so mais fortes do que a 
ameaa Isto combina agora vrias implicaes feitas no decorrer deste captulo: 
a causa bsica do predomnio da ansiedade destrutiva, em nossos dias, tanto no cam pus como no resto da sociedade,  a 
desintegrao de valores em nossa cultura. A experincia de valores do estudante  que fornece o ncleo em torno do qual 
ele se conhece como uma pessoa e lhe proporciona tambm algo a que vincular-se. Nos meus tempos de universidade, 
descobrimos certos valores na religio a que podamos nos vincular, certos valores econmicos no neo-socialismo, valores 
no pacifismo, valores na poltica e valores na causa do esclarecimento racional nos domnios da arte, sexo e religio. 
Lamentavelmente, o estudante de hoje parece dispor apenas de duas reas que o desafia, em qual- 
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quer sentido bsico: as relaes internacionais, na forma do Peace Corps, e as relaes raciais. 
Que podemos fazer para tornar o clima do cam pus mais propcio ao desenvolvimento de valores? Por certo no podemos 
trazer de volta os antigos valores, em qualquer forma externa. Mas podemos ajudar-nos a ns prprios e aos nossos 
estudantes na redescoberta das fontes de escolhas de valores, na sabedoria acumulada no passado do homem. Isto significa, 
em primeiro lugar, uma nova valorizao das humanidades. Quando o Reitor Barzun, de Columbia, prev o declnio de 
graduaes em humanidades porque a finalidade da graduao se converteu, preponderantemente, em aprender como ganhar 
a vida e as humanidades foram tecnologizadas com o resto da nossa cultura, devemos ouvi-lo seriamente; mas tambm 
podemos tentar medidas para sustar essa tendncia. Proponho que uma nova compreenso da importncia crtica da 
capacidade de avaliao do homem, ou de atribuio de valores, ajudar a redescobrir as humanidades, no como 
passatempo para as horas de cio de senhoras idosas, mas como o prprio sangue e nervo das nossas escolhas de valores 
que podem converter essas massas de fatos em civilizao. 
O que  importante, ao lidar com a ansiedade, no  que os professores dem aos estudantes o contedo dos valores, mas 
que os estudantes aprendam o ato de avaliar. Note-se que enf atizei aqui valor como verbo. No momento de 
ansiedade, se o estudante estar apto ou no a utilizar a experincia  e a desenvolver-se nela  depende da sua prpria 
capacidade interna de escolher os seus prprios valores nesse momento. 
Isto nos leva, finalmente, para a questo do engajamento. A ansiedade  usada construtivamente quando a pessoa est 
apta a relacionar-se com a sua situao, a proceder  sua avaliao e, depois, a engajar-se com um curso de ao, um modo 
de vida. Nos campus deste pas, durante as dcadas que antecederam a ltima, assinalei que estvamos vinculados a uma 
poltica de no-engajamento, a uma contestao de tudo pelo mero intuito de contestar. Creio que isso mudou e os 
estudantes anseiam agora  em nveis profundos, ainda que submersos, de suas personalidades  por algumas atitudes, 
modos de vida, sobre os quais possam ter uma preocupao fundamental e com os quais possam se engajar. Desconfio de 
que os nossos estudantes 
 ainda que, em nveis que, freqentemente, podem no estar bem articulados  se aperceberam de- que os objetivos 
geralmente aceitos de adaptao e sobrevivncia no so suficientes e de que Aristteles estava certo quando disse: No  
a vida que deve ser valorizada, mas a vida boa. Talvez estejamos caminhando para um tempo (espero que a minha 
esperana no seja uma iluso) em que professores, artistas, intelectuais de todos os tipos, no se mostrem contritos por se 
engajarem  quando, como Scrates, contestaremos mais corajosamente porque acreditamos com maior coragem. 
